Talha-mar (Rynchops niger)
 
 
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Aves melhoram seu canto com confinamento de humanos
Efeitos da pandemia da covid-19 na vida selvagem
 

20/10/2020 – A pandemia da covid-19 transformou a relação humana em praticamente todo o planeta. A necessidade de distanciamento social e o confinamento, por meio das quarentenas, também alterou a vida selvagem. Com a redução da poluição sonora, animais que dependem do som e da vocalização para sobreviver tiveram mais facilidade nesse desafio da sobrevivência.

Essa redução da produção de ruídos humanos fez com que aves da baía de São Francisco, na Califórnia, nos Estados Unidos, adaptassem sua vocalização, tornando-a mais grave, suave e com volume mais baixo, o que pode melhorar a qualidade e permite que as aves possam poupar energia para aplicar na defesa de seu território e ampliar a frequência de reprodução. Essas conclusões estão em um estudo publicado na revista Science, que avaliou as alterações na vocalização dos pardais-de-coroa-branca.

Reprodução/Wikipedia

 



Populações de pardais-de-coroa-branca, na região da baía de São Francisco, têm sido estudadas e monitoradas há mais de duas décadas por Elizabeth Derryberry, pesquisadora no departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade do Tennessee (EUA) e principal autora do estudo que avalia como a poluição sonora afeta a vocalização dessas aves.

O pardal-de-coroa-branca, também conhecido, como tico-tico-de-coroa-branca (Zonotrichia leucophrys), é uma espécie passeriforme nativa da América do Norte e bastante comum na baía de São Francisco, um estuário que drena aproximadamente 40% dos cursos de água da Califórnia. A espécie se caracteriza por vocalizações ligeiramente diferentes, reconhecidos pela suavidade e uma sucessão de ‘apitos’.

Reprodução/Wikipedia

 



Segundo o estudo, as aves que possuem territórios de reprodução em áreas com níveis de ruídos mais intensos, como os pardais, mantém uma vocalização com maior amplitude, ou seja, um contraponto sobre os ruídos do ambiente, sobretudo, aqueles gerados pelos humanos. Esse esforço é conhecido como efeito Lombard (Lombard effect), que trata de uma tendência involuntária para que um indivíduo aumente seu esforço vocal, para ampliar a audibilidade.

A pesquisa procurou entender como os pardais-de-coroa-branca conseguem mudar sua vocalização, depois de uma ruptura dos níveis de ruídos originada pela redução do tráfego de automóveis na região da baía e áreas próximas, com características mais rurais. O estudo comparou registros de vocalizações das aves de abril a junho de 2015 e 2016, com gravações realizadas nos mesmos locais, de abril a maio de 2020, período de primavera. Portanto, pouco tempo após a determinação da quarentena na Califórnia.

Reprodução/Wikipedia

 



Os pesquisadores dizem que as aves do último grupo, de 2020, exposto a ruídos menos intensos, exibiram também reduções nas amplitudes vocais, menor volume na vocalização, e nas frequências mínimas vocais, tom mais grave, o que determinou um aumento no desempenho da vocalização e redução no gasto de energia que pode ser gasto na reprodução, na busca de alimento e na defesa do território.

O estudo demonstra que as aves podem se adaptar rapidamente as mudanças do ambiente e que caso esse novo estado do ambiente permanecesse, as espécies teriam resultados benéficos para todo o ecossistema, incluindo uma maior diversidade de espécies. “Se o ruído antropogênico for reduzido, é possível que espécies que atualmente evitam as áreas urbanas, devido ao barulho, voltem para essas áreas”, conta ao PÚBLICO David Luther, biólogo da Universidade George Mason, na Virgínia (EUA), e um dos autores do artigo.

Reprodução/Wikipedia

 



Derryberry, em entrevista a BBC News, disse que “este estudo mostra que quando se reduz a poluição sonora há um efeito quase imediato no comportamento da vida selvagem e isso é realmente interessante, porque muitas ações que tomamos para tentar ajudar o ambiente demoram muito tempo a ter efeito.”

As vocalizações dos pardais-de-coroa-branca têm sido registradas e analisadas desde os anos 70, quando os ruídos do tráfego de automóveis eram bem menores. Mas com o passar dos anos, esses barulhos se ampliaram e as aves tiveram que se adaptar a essa nova realidade. Em outro estudo também realizado por esses pesquisadores, ficou demonstrado que à medida que os ruídos urbanos aumentavam naquela região, as aves locais passaram a produzir uma vocalização com frequências mínimas não elevadas, ou seja, uma vocalização mais aguda e mais alta. Apesar de esse efeito significar uma comunicação mais distante, também demonstra uma perda da qualidade da vocalização, por conta do gasto maior com energia. Outro fator importante é o estresse resultante desse esforço, o que pode levar ao envelhecimento das aves e alterar seu metabolismo.

Os efeitos da pandemia com o distanciamento social e a quarentena fizeram com que alguns norte-americanos relatassem que a vocalização das aves parecia diferente. Apesar de essa vocalização parecer estar com um volume mais alto, na verdade, os pardais vocalizaram de forma mais suave e mais baixa, mas essas vocalizações puderam chegar mais longe pela ausência de ruídos produzidos pelos humanos. A pesquisa revelou que os pardais vocalizaram, em média, 30% mais baixo, em comparação ao período antes da pandemia, uma vocalização parecida com a registrada na década de 70.

Reprodução/Wikipedia

 



“As pessoas estavam certas quanto às aves soarem de forma diferente durante o confinamento e preencherem a paisagem sonora, basicamente abandonada por nós”, disse ainda Elizabeth Derryberry, à BBC News. “Ao abandonarmos a paisagem sonora, as aves mudaram-se para cá [baía de São Francisco] e penso que isto nos diz algo sobre o grande efeito que temos no canto das aves e na sua comunicação, especialmente nas cidades”, conclui.

Segundo o estudo, antes da quarentena, a área urbana na baía de São Francisco era em média, quase três vezes mais barulhenta, que áreas rurais ao redor. Os pesquisadores registram uma redução de até sete decibéis. Em relação à vocalização das aves, a amplitude diminuiu cerca de quatro decibéis durante a quarentena. Ainda que tenha havido essa redução, a distância de comunicação dobrou, o que ressalta o impacto da poluição sonora na comunicação das aves.

David Luther, um dos pesquisadores explica ao Público como a equipe chegou aos resultados do estudo. “Foi utilizado um gravador digital, equipado com um microfone omnidirecional, que capta de forma uniforme todos os sons emitidos ao seu redor, bem como um medidor de nível de pressão sonora (sonômetro). Após a gravação das vocalizações das aves e dos ruídos de fundo, os registros foram analisados estatisticamente.”

Com o retorno das atividades humanas, os ruídos voltaram e a pressão sobre a vida selvagem deve ser intensificada novamente. Os pesquisadores pretendem continuar os estudos na região.

Criado em 2015, dentro do setor de pesquisa da Agência Ambiental Pick-upau, a Plataforma Darwin, o Projeto Aves realiza atividades voltadas ao estudo e conservação desses animais. Pesquisas científicas como levantamentos quantitativos e qualitativos, pesquisas sobre frugivoria e dispersão de sementes, polinização de flores, são publicadas na Darwin Society Magazine; produção e plantio de espécies vegetais, além de atividades socioambientais com crianças, jovens e adultos, sobre a importância em atuar na conservação das aves.

Da Redação, com informações do Público
Fotos: Reprodução/Wikipedia

 
 
 
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