Pesquisa
revela que retinas das aves funcionam sem oxigênio
Ao
mesmo tempo, o estudo derruba uma antiga suposição
sobre uma estrutura misteriosa no olho que intriga os cientistas
desde o século XVII
30/01/2026 – As retinas
das aves, apesar de serem altamente consumidoras de energia,
funcionam sem oxigênio ao utilizar a produção
de energia anaeróbica. Um estudo publicado na Nature
mostra como essa adaptação resolve um paradoxo
biológico e pode contribuir para futuras abordagens
no tratamento de pacientes com AVC.
O estudo também desmonta
uma antiga suposição sobre uma estrutura ocular
que intriga cientistas desde o século XVII. Ele relembra
que, na maioria dos animais, o tecido neural — especialmente
a retina, que é uma extensão do cérebro
— depende de densas redes de vasos sanguíneos
para suprir sua altíssima demanda energética,
sendo o tecido que mais consome energia no corpo.
As aves apresentam um paradoxo
biológico: suas retinas não possuem vasos
sanguíneos, o que melhora a acuidade visual, mas
levanta a questão de como o tecido sobrevive sem
suprimento sanguíneo. Segundo o biólogo Christian
Damsgaard, pela fisiologia conhecida isso não deveria
ser possível. A investigação dessa
contradição levou oito anos de pesquisa até
a publicação dos resultados.
Por séculos, acreditou-se
que o pecten oculi, uma estrutura altamente vascularizada
no olho das aves, fosse responsável por fornecer
oxigênio à retina. Conhecido desde o século
XVII, sua função exata nunca foi confirmada,
em parte porque os níveis de oxigênio na retina
das aves nunca haviam sido medidos diretamente em condições
normais.
Medir o oxigênio na
retina das aves é tecnicamente muito difícil,
pois exige manter o animal em condições fisiológicas
normais durante medições delicadas. Em 2020,
a equipe conseguiu realizar esse feito e descobriu que o
pecten oculi não fornece oxigênio à
retina, que funciona em privação permanente
de oxigênio, com cerca de metade do tecido retiniano
sem suprimento de oxigênio.
Diante da ausência
de oxigênio na retina, os pesquisadores investigaram
como ela consegue produzir energia suficiente para funcionar.
Para isso, realizaram um estudo de vários anos que
integrou fisiologia, biologia molecular, técnicas
de imagem e análise computacional, enfrentando desafios
ligados à complexidade dos dados e às restrições
impostas pela pandemia de COVID-19.
Usando a transcriptômica
espacial, os pesquisadores mapearam a expressão de
milhares de genes em diferentes regiões da retina,
identificando onde vias metabólicas específicas
estavam ativas. Essa abordagem, que funciona como um “GPS
molecular”, permitiu analisar simultaneamente entre
5.000 e 10.000 genes e sua localização precisa
no tecido.
Os resultados mostraram
que genes da glicólise anaeróbica estavam
altamente ativos nas camadas internas da retina sem oxigênio.
No entanto, como esse processo gera muito menos energia
do que o metabolismo com oxigênio, a descoberta levantou
a questão de como um tecido tão energeticamente
exigente consegue funcionar de forma eficiente.
Estudos de imagem metabólica
revelaram que a retina das aves absorve glicose em taxas
muito maiores que o restante do cérebro. Ao reanalisar
os dados, os pesquisadores descobriram que o pecten oculi
possui alta expressão de transportadores de glicose
e lactato, atuando como uma porta de entrada metabólica
que fornece açúcar à retina e remove
o lactato produzido pelo metabolismo anaeróbico.
O pecten oculi não
fornece oxigênio, mas atua como um sistema de transporte
metabólico, levando combustível à retina
e removendo resíduos. Essa descoberta muda de forma
fundamental a compreensão de uma estrutura mal interpretada
por séculos e ilustra como o conhecimento científico
evolui com novas evidências.
Evitar oxigênio e
vasos sanguíneos na retina provavelmente melhora
a acuidade visual, uma adaptação evolutiva
herdada dos dinossauros que originaram as aves. Embora o
estudo seja fundamental, suas descobertas podem inspirar
novas abordagens médicas, já que a retina
das aves lida com a falta de oxigênio de forma eficiente
— algo que, em humanos, causa danos em condições
como AVC.
Saiba mais: Christian Damsgaard,
Metabolismo livre de oxigênio na retina interna das
aves apoiado pelo pecten, Nature (2026). DOI: 10.1038/s41586-025-09978-w
. www.nature.com/articles/s41586-025-09978-w
Criado em 2015, dentro do
setor de pesquisa da Agência Ambiental Pick-upau,
a Plataforma Darwin, o Projeto Aves realiza atividades voltadas
ao estudo e conservação desses animais. Pesquisas
científicas como levantamentos quantitativos e qualitativos,
pesquisas sobre frugivoria e dispersão de sementes,
polinização de flores, são publicadas
na Darwin Society Magazine; produção e plantio
de espécies vegetais, além de atividades socioambientais
com crianças, jovens e adultos, sobre a importância
em atuar na conservação das aves.
Da Redação,
com informações de agências internacionais
Matéria elaborada com auxílio de inteligência
artificial
Fotos: Reprodução/Pixabay