Aves
marinhas ingerem quantidades consideráveis de poluentes,
alguns proibidos há décadas
Análises
indicam concentrações de poluentes orgânicos
persistentes (POPs), como DDT e formicida Mirex
20/02/2026 – Por André
Julião, da Agência FAPESP - No livro Primavera
Silenciosa, de 1962, a bióloga norte-americana Rachel
Carson relata como o DDT, um pesticida até então
largamente utilizado para conter pragas agrícolas,
era responsável pela morte massiva de aves, incluindo
a emblemática águia-americana.
Uma das razões era
que a contaminação torna as cascas dos ovos
mais finas, a ponto de as mães os quebrarem quando
se sentam para chocá-los. O livro é tido como
fundador do movimento ambientalista moderno.
Nos anos 1970, a maior parte
dos países ricos havia banido o DDT. No Brasil, a
proibição agrícola só ocorreu
em 1985, mas o veneno continuou liberado para controle de
vetores de doenças como o Aedes aegypti. Apenas em
2009 uma lei proibiu o uso, a fabricação e
estocagem do diclorodifeniltricloretano no país,
seguindo a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes
Orgânicos Persistentes.
No entanto, um trabalho
publicado na revista Environmental Monitoring and Assessment,
com apoio da FAPESP, traz novas evidências sobre a
presença do DDT e de outros chamados poluentes orgânicos
persistentes (POPs) no organismo das aves.
“Ainda que não
tenham sido usados numa determinada área, os poluentes
orgânicos sofrem o efeito gafanhoto. Nesse fenômeno,
eles se evaporam no calor e se condensam novamente no frio.
Com isso, migram pelo ar, das baixas latitudes dos trópicos
em direção às áreas polares”,
explica Janeide de Assis Guilherme Padilha, pesquisadora
da Universidade do Minho, em Portugal, e primeira autora
do estudo.
Numa parceria com a pesquisadora
Maria Virginia Petry, da Universidade do Vale do Rio dos
Sinos (Unisinos), Padilha e pesquisadoras do Instituto Oceanográfico
da Universidade de São Paulo (IO-USP) analisaram
os fígados de carcaças de aves marinhas de
seis espécies encontradas na costa do Rio Grande
do Sul durante sua migração anual para o Atlântico
Sul.
As pesquisadoras analisaram
ainda o sangue de uma população residente
de atobá-pardo (Sula leucogaster) no Arquipélago
de São Pedro e São Paulo, conjunto de ilhas
rochosas distante cerca de mil quilômetros da cidade
de Natal (RN).
Mesmo tão longe da
costa e de atividades humanas, os atobás-pardos do
arquipélago apresentaram contaminação
por DDT e por PCBs (bifenilas policloradas), compostos industriais
antes usados em transformadores e reatores elétricos.
As seis espécies
analisadas da costa gaúcha, ainda que com diferentes
hábitos alimentares, apresentaram níveis parecidos
de POPs entre si, embora os dois indivíduos de pardela-de-bico-preto
(Ardenna gravis) analisados tenham tido uma média
maior de PCBs e Mirex, um formicida também banido,
mas que persiste no ambiente.
O trabalho teve apoio da FAPESP por meio de equipamento
multiusuário, instalado no IO-USP.
Novas perguntas
Nas aves, os POPs podem ser transferidos de mãe para
filho e causam o afinamento da casca dos ovos, entre outros
problemas, enquanto em humanos estão relacionados
a alguns tipos de câncer, desregulação
do sistema endócrino e problemas reprodutivos e de
desenvolvimento.
Os resultados surpreenderam as pesquisadoras por conta das
semelhanças entre os níveis encontrados mesmo
em espécies com diferentes dietas e tamanhos. A água
e os alimentos são os principais vetores da contaminação
de aves marinhas.
“Esperávamos
que espécies de maior porte, como os albatrozes,
apresentassem as maiores concentrações de
POPs, já que ocupam níveis tróficos
mais altos e costumam consumir presas maiores e mais longevas,
que acumulam mais contaminantes ao longo da vida. Contudo,
a pardela-de-bico-preto exibiu os valores mais elevados
de PCBs e Mirex”, conta a pesquisadora, que realizou
parte do estudo durante pós-doutorado no IO-USP.
A pardela-de-bico-preto
(Ardenna gravis) percorre rotas migratórias extensas,
utiliza áreas associadas à pesca e pode se
alimentar de presas capturadas em regiões mais contaminadas
do Atlântico Sul, o que ajuda a explicar por que apresentou
uma carga de poluentes tão alta.
Outro exemplo faz parte de um trabalho publicado anteriormente
pelo grupo de Padilha. Populações de uma mesma
espécie, o atobá-pardo, de três diferentes
locais, possuíam diferentes perfis de contaminação.
Uma hipótese para
a maior concentração de poluentes tóxicos,
como estanho, nas aves das Ilhas Cagarras, no Rio de Janeiro,
em relação às de Abrolhos e do Arquipélago
de São Pedro e São Paulo, por exemplo, é
que as ilhas cariocas recebem mais desse contaminante, por
conta da proximidade com a área urbana.
Além disso, aquela
população de aves se alimenta predominantemente
de lulas, que acumulam mais o metal tóxico do que
as espécies que são alimentos mais abundantes
nas outras áreas estudadas.
“É preciso
levar em conta que, no trabalho atual, analisamos materiais
biológicos distintos: no Rio Grande do Sul os fígados
de animais já mortos e , no arquipélago, o
sangue dos atobás-pardos vivos. Outros tipos de análise
ou tecidos podem apontar poluentes que não encontramos
com os métodos usados agora”, ressalta Padilha.
Os fígados representam
acúmulos prolongados, porque muitos POPs têm
baixa taxa de metabolização e acabam permanecendo
no órgão por longos períodos. O sangue,
por sua vez, dá uma ideia do que está circulando
no organismo.
Padilha agora investiga
o papel da poluição plástica para as
aves marinhas. Alguns POPs, como os retardantes de chamas,
por exemplo, estão presentes em plásticos
facilmente acessíveis para aves no oceano.
“Suspeitamos que algumas
cores são associadas a certos alimentos, o que estaria
fazendo essas aves ingerirem pedaços de plástico”,
diz. Em trabalhos de campo nas Ilhas Cagarras, a pesquisadora
já presenciou escovas de dentes e isqueiros sendo
usados como parte dos ninhos.
O artigo Bioaccumulation
of legacy POPs in seabirds: A multi-species comparison between
Procellariiformes and Suliformes in the South Atlantic.
https://link.springer.com/article/10.1007/s10661-025-14703-1
Criado em 2015, dentro do
setor de pesquisa da Agência Ambiental Pick-upau,
a Plataforma Darwin, o Projeto Aves realiza atividades voltadas
ao estudo e conservação desses animais. Pesquisas
científicas como levantamentos quantitativos e qualitativos,
pesquisas sobre frugivoria e dispersão de sementes,
polinização de flores, são publicadas
na Darwin Society Magazine; produção e plantio
de espécies vegetais, além de atividades socioambientais
com crianças, jovens e adultos, sobre a importância
em atuar na conservação das aves.
Da Redação,
com informações de agências internacionais
Matéria elaborada com auxílio de inteligência
artificial
Fotos: Reprodução/Pixabay